Marias

Maria acordou com fome. A seu lado o bebê ainda dormia. Ela dormiu novamente, não podia, não queria sentir fome. A criança dormiu até que começou a chorar procurando o peito da mãe. Ela deu de mamar e chorou a fome doída dela. Não tinha o que comer e  o que vestia era o que recebeu numa sacola da última vez que saiu em busca de esmola. Naquele cubículo onde se ajeitavam, só o seu leite era alimento. O resto tinha mal cheiro. Suor e urina umedeciam a espuma onde deitavam. O sol começava a tornar insuportável permanecer ali e ela precisava comer. Saiu com seu bebê, andou um pouco e olhou para o latão aberto e rodeado de moscas. Não sentia mais nojo, só fome. Comeu o que pôde.

 

Maria levantou-se e preparou um café. Ela gostava de sentir o cheiro do café pela casa desde muito jovem. Tomou seu café e conferiu a lista mental dos afazeres daquele dia. Comeu o pão com manteiga, o cereal, a fruta, já com pressa, e se aprontou tomando um banho morno e escolhendo a roupa que lhe pareceu mais adequada dentre tantas. Saiu no seu carro ouvindo no rádio as músicas que gostava naquela emissora de todos os dias.

 

Maria sentou-se no meio fio com o bebê no colo e pensou em chorar. Não tinha fraldas na última sacola de esmolas e a criança estava suja. Olhou para o homem que vinha naquela direção mas não conseguiu sustentar o olhar. Levantou-se tentando encontrar forças para continuar a busca por comida e fralda e coragem para manter-se viva. Vergonha, medo, tristeza, sonhos. E foi num dos sonhos que ela  encontrou coragem e energia para caminhar até lá.

 

Maria estacionou na vaga mais próxima à entrada, pegou o carrinho e começou suas compras no supermercado quase vazio. Escolheu frutas, selecionou legumes. Estava distraída mas ouviu o auto-falante anunciar: “- pedimos aos senhores clientes que não efetuem doações dentro de nosso estabelecimento”. Aquilo não fez sentido. Que fome seria tão imperativa para que algum pedinte entrasse naquele mundo de fartura? Continuou escolhendo produtos frescos: carne, pão, ovos… O auto-falante repetiu o aviso e ela estranhou. E sentiu fome. E sentiu nojo. E sentiu pena e não pôde fazer nada:  Maria estava caída, com seu bebê, no corredor da fartura.

Ao lado

Achou fácil enquadrar a pressa do verso
com a moldura tecnológica.
Abriu o programa, digitou, salvou.
Para não encarar a ausência, escreveu.
Só não imaginou que, assim, a carência
e o vazio seriam suas vizinhas de quarto.
Travaram o diálogo difícil de quem acaba gostando de vínculo.