Um homem dorme

Naquele labirinto de cortinas
Jaziam corpos dormentes.
Esperando o outro,
Aguardando tempos.
A blusa rosa da moça de outubro
Carregava uns cinzas hospitalares.
Cabos e mostradores,
alavancas e degraus,
empilhados e sobrepostos.
Cenário de guerra.
Coração pulando um choro…
Acorda que está gelado!
Dorme que acabou.

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Havia

Havia um interlocutor
Dizia metáforas
Perseguia dúvidas

Sem saber
ou por saber
Causava ânsia
Ditava linhas

Perguntava a esmo
Provocava
mas não irritava
Doce era seu olhar

Quando cantou
O subúrbio ouviu
O velho viu
O trem passou
Sorrindo

Veraneio

Quero mais que outono
Uma chaminé fumegando
Uma geada na flor dormida

Podar a renda
Adubar a espera da flor
Que certamente virá

Quero a lã vermelha
O linho seco
A folha caída

Tenho na fotografia
A árvore amarela
E nuvens caídas
Na neblina da serra

E na memória
A festa que a grande pedra abraçou
Uma dança que a tangerina cantou
E aquela porta que o vento bateu