Cantiga

Lava roupa
Põe na corda
Recolhe
Passa e guarda
Sonha

Lê o romance
Marca as páginas
Relê
Discorda
Resiste

Rega as plantas
Retira folhas
Admira o broto
Contrai o músculo
Ergue o vaso
Aduba
Espera

Corta legumes
Lê a receita
Muda ingredientes
Ferve
Serve e prova
Lava a louça
Chora

Escolhe a caneta
Rabisca o papel
Desenha letras
Enquanto imagina,
Escreve os dias
Sorri sua loucura
Visita amizades

À distância elabora
De perto realiza e modela
Amassa, redige, ilumina
Costura, recorta
Ao largo espera
Silencia
Depois grita

Entalhe

Sou escultura e uma pedra habita em mim
Um ser inanimado sonhando com movimento
Voar, refletir, beijar

Mas tem dias que sou líquida
Nada me contém
Escorro por toda parte…
Quero estar, bastar, pertencer

Amanhã serei normal
Calçarei chinelos
Usarei um vestido velho
Regarei todas as plantas
E sentarei na calçada imaginando a banda passar

Renda

Ela bordou um coração
Era ponto-cruz
Hoje ponto-atrás

Volta e meia reborda
Desmancha
Muda a linha
Perde a agulha
Chora a saudade

Ela bordou um laço
Era ponto-cheio
Amarrou bem

Não soltou azuis
Guardou lilases…
Sobre o tom perdido
Lamenta o dia

No fim bordou a flor
Usou arame
Rasgou o tecido
Partiu com nada
Deixou umas caixas
Todas vazias