Retirante

No caminho contrário
Vejo os mesmos espinhos que eles abandonaram.

Não visto jibão,
Nem monto os cavalos fortes.
Não levo um cachorro sarnento,
Muito menos filhos famintos.

Vislumbro a gentileza do profeta, a rima do sambista,
O fogo no barro, a doçura de uma carta.

E enquanto visito a pauta digital, desenho no papel,
Colhendo minhas lembranças.

Respondo algumas perguntas:
Delas, dele, as minhas.
As outras deixo na reticência.
E, nesse exercício de olhar ora estrelas ora minhocas,
Folheio a estante toda.

No final, é o desejo de resumir o futuro
Que ainda não vem.

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Modelagem

Vou amassando esse barro mental
Constante movimentação das mãos…
Manipular todas as coisas,
Em cada parte ou todo
É preciso disciplina e carinho,
Desprendimento, força, energia.
E o impossível vem à tona
Toma emprestado sua razão
Implica com sua intimidade,
Questiona.
Machuca, fere, investiga.
Lista interminável de afazeres
Passo a passo inquietante

Tudo ao alcance do amor
Do rancor e da dor.

Melodias

Como as onze-horas rosas, não fico florindo à toa.
Quando me mostro, gosto.
Quando apareço, sou e brilho.
Se vejo olhares não agendados em mim,
volto ao que sou dentro.

E apesar do sal e do peso da alma,
o colo de minha menina
com aquele vestidinho,
segurando uma boneca
e entortando as pernas
para o moço da câmera,
Me socorre…
me salva até a próxima manhã.

Porque a sina é florir antes do meio-dia.