Ébrio

Sobrancelhas grossas,
Lava suas meias.
Bebia muito leite.
Agora, anônimo, vai ao bar.
Declara preferências num teorema.
Come pouco porque enjoa, fácil.
Lê – o bastante para ter assunto.
Varre o quintal, antes lavava.
Joga dominó com a vizinha.
Quando dorme sonha em voz alta: melindres…
E ama. As três.
Na mesma intensidade e
cada uma no seu tom:
Azuis

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Feito Seda

Uma colcha de retalhos indefinida, complexa
Sempre em construção
Costurava sem parar, desistia de um retalho, compunha com outros
Ia à loja de tecidos e se  via num parque
Sentava-se à sombra de uma árvore pano, escolhia fitas e organdis
Feliz, preenchia um vazio desconhecido
Levava tudo junto ao peito, abraçada

Já em casa guardava o embrulho na estante da espera
Voltava às agulhas e pedacinhos de coisas, os paninhos
Desistia, desmanchava, recompunha
Cores similares, amigos distantes, algumas beldades
Sonho almofadado para nunca terminar

…e nunca terminava com medo do fim.

Prosopopeia

No prólogo
O sonho da noite dormida veio abrir o espetáculo:
solicito a todos bondade e calma
Uma angústia comprida
Um varal de rendas duras
Aquela cascata de pedacinhos
São cacos da Caroline?
São os canecos do Saramago
Algum acúmulo de raízes
Coleta do barro no morro
…uma decepção triste
A estrada da modelagem e a ameaça do fogo
(seriam muitos? seriam espíritos?)
No epílogo
Suplico a benevolência do público e ganho um beijo.