Bolha de Sabão

Vi uma enorme bolha de sabão naquela cidade.

Vi algumas mais.

Aquela cidade durou oito tempos e eu me enclausurei na bolha.

O barro puro, sujo do sedimento que ficou, trouxe meu caminho.

Modelei  ideias,  cresci com minhas meninas.

Cuidei para que suas vidas fossem na medida de seus desejos.

Crianças na escola alegraram meus dias.

Funcionaram como uma mola, fui adiante e para cima.

Busquei estudo, li como nunca – havia uma livraria.

Fiz amizades e depois desfiz porque não quis voltar.

Não houve força para um adubo amigo.

Não deixei as raízes por lá. Ficaram os laços de cetim fino.

Porém o jardim veio comigo encabeçando o propósito, soprando estrutura.

Replantei tudo numa pedra grande com tempestades subtropicais.

Com carinho mudei plantas e casas. Móveis e pele.

Um rastro de montanhas e planícies foi se formando.

Pedaços de desejos foram ficando ao vento e polinizando outras flores.

Agora vejo essas bolhas e o vazio que há nelas.

Mas voam, são coloridas e iluminam o olhar de quem vê a foto…

e nem quer saber se ela explode ali adiante.

Quase irmãs

Uma…
Fumava quase muito
Tecia tramas de nós bonitos
Contava os dias nas navetes
Nas voltas que a linha dava
Duas…
Bebia um tanto
Só para esperar a noite
Só para desentristecer
E olhava longe
Três…
Misturava açúcar e alho
Servia na louça trincada
Comia para acostumar-se
Sentia a cor da mesa vazia
…o retrato não dizia intimidades.

Vertiginoso

Aí então você se pega dentro

Tão dentro que o casulo te sufoca

 

Nesse instante você se mexe

se organiza para romper

 

Mas um vento   sopra:

não é hora, Inércia

 

E você suporta,

encontra aconchego

onde antes havia morte iminente

 

O calor traz coceiras

O aconchego traz amarras

O aperto é escolha

 

Prende a respiração

Controla

Analisa e sonha

Duvida

 

Espera nova pulsão

Encontra alento

 

Explode, afinal

Nas fibras  da seda

Com gosto de amora